Adultos de brincadeira
Kety Shapazian
Paulo Pampolin/ Hype
Na foto, Fabio Eduardo, da PlayToy: "os clientes não crescem".
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Saudosismo? Fetiche? Loucura? Modismo? O que faz uma mulher pagar R$ 340 na torradeira da Hello Kitty, a simpática gatinha japonesa, ou um homem desembolsar R$ 1,3 mil em um carro de lata do Batman dos anos 1960? Basta uma volta por qualquer shopping center, ou pelas ruas dos Jardins, para avistar mulheres carregando bolsas da Hello Kitty ou preenchendo um polpudo cheque com caneta da personagem, que completou 31 anos este ano. Adultos na casa dos 30 anos e com vidas profissionais estáveis recorrem a vendedores de bonecos antigos atrás de um autorama ou de um boneco Falcon, com saudades dos tempos de infância. São os chamado "kidults".
Um exemplo dos integrantes desse grupo é Eduardo Costa, 37 anos. Quem o conhece logo percebe que se trata de um adulto sério. É diretor financeiro de uma empresa de agenciamento de transportes e pai de família. Guardou muitas lembranças da infância, como o autorama, e ainda vai atrás de brinquedos que os amigos tinham, do tempo de "eu-tenho-você-não-tem".
Ferrorama, motorama, vertiplano, carrinhos matchbox, gamewatch, ele compra de tudo. Desde que funcione e esteja com a caixa. Chegou a adquirir uma vez um brinquedo só porque o dono tinha a nota fiscal.
Como não tem espaço para tudo, Costa guarda grande parte das aquisições na casa da mãe. Lá também guarda outra paixão: carros antigos. "Gosto de tudo que é antigo." Os brinquedos que ele adquire são cuidadosamente embalados em papel filme com um sachê de silica gel anti-mofo.
"Tem dia que o meu filho diz que quer brincar com os meus brinquedos, não com os dele", conta. Mas Costa impôs ao "Eduardinho" uma condição: o menino só pode se divertir com os brinquedos antigos quando o pai estiver por perto. "Nem com a babá eu deixo."
O diretor financeiro conta que viu anúncios de compra de autorama e que acredita na valorização desses produtos.
Moda Kitty
Sharon Judith Cohen, proprietária de duas lojas Sanrio, que licencia a marca Hello Kitty, confirma a tendência. Ela diz que metade de seus clientes são adultos. Há uma linha de roupas e outra de bolsas para mulheres que já deixaram a adolescência há algum tempo. "Bolsa é o que mais sai. Tem cliente que leva também carteira, porta-celular e necessaire, montando um kit", revela, ela própria fã da marca. Sem contar maridos e namorados que buscam presentes do gênero.
Dos mais de 2 mil itens disponíveis às ávidas consumidoras, os eletrônicos são os mais caros. A torradeira sai por R$ 340. "Qualquer novidade que chega à loja, as vendedoras avisam as colecionadoras." Sharon conta que uma cliente de 70 anos ia ao Pantanal e passou na loja do Shopping Ibirapuera para comprar uma sombrinha da Kitty. "Até pedi para ela me mostrar as fotos depois."
"A Hello Kitty é a minha infância", diz a proprietária da loja. Até as vendedoras só são contratadas se mostrarem a mesma paixão. "No final, elas acabam sendo as maiores consumidoras da loja."
Sucesso, no passado
Fabio Eduardo, 36 anos, é dono de uma loja virtual, a Playtoy, que oferece brinquedos antigos. Antes, vendia os brinquedos em feiras de carros usados – o Fusca Bativolta e a Jamanta Eletrônica, ambos da Estrela, faziam o maior sucesso. A Jamanta trazia na carroceria quatro carros: Passat, Puma, Chevette e Maverick. "Os donos desses carros adoravam."
Começaram, então, os pedidos nostálgicos. Chegou uma hora em que Eduardo achou melhor anunciar em sites de leilão, para depois montar a Playtoy. Ele compra os produtos dos "caras que cresceram" e não os querem mais. "O contrário dos meus clientes, que não cresceram."
Algumas pessoas querem mostrar aos filhos com o que brincavam quando eram crianças. Outros, segundo Eduardo, sofrem ainda da síndrome do "eu-quero-o-que-o-meu-vizinho-tinha".
As mulheres são apenas 20% dos clientes, mas a maioria compra para os filhos. "Dificilmente o brinquedo é para ela." A explicação é que é mais fácil fazer um autorama funcionar do que uma boneca, além de serem raras as bonecas com os itens originais e a caixa intacta. "Para alguns, a caixa é mais importante que o brinquedo."
Atualmente, o produto mais caro que Eduardo tem disponível é um carro do Batman de lata dos anos 1960 – R$ 1,3 mil. A boneca mais cara é a Guigui (R$ 350). Há até homens colecionando bonecas.
Para a psicóloga da clínica de endocrinologia e metabologia do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo, Silvana Martani, o motivo de alguns adultos comprarem brinquedos antigos é simples. "Acho que as pessoas necessitam se remeter à parte lúdica da infância para aliviar a rotina estressante da vida adulta."
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